é um verso feito pra durar,
para inspirar qualquer vida
em mim...
Minha oração não é minha
para me acompanhar
Quando acordei era frio, a cama parecia me abraçar sem querer sair de mim. Uma preguiça lenta esticava meus braços e pernas. E eu levantei pisando no chão frio de cerâmica, pés tão quentes. Bocejei o peso do mundo.
A primeira aula era de Biologia, invertebrados, tudo fazia lembrar a viagem à Paraty no ano de 2007. O pepino e a estrela do mar nas mãos da professora Vivi. Aquela cidade esconde uma serenidade veemente literária.
Mas a proposta para essa sexta-feira era escrever uma crônica na aula de Produção Textual dada impecavelmente pela professora Raquel.
Ela não era muito alta, uma pele lúcida e pálida deixava à mostra formas definidas e um cabelo num louro a iluminar toda a sala. Mas havia nela uma certeza absoluta e madura. Duas tatuagens estrategicamente localizadas e um conhecimento infinito que passara aos alunos com fiel didática.
Eu não tinha tema para àquela crônica que ela havia proposto. Contudo, e exclusivamente hoje, ela vestia um vestido floral que despertava alegria. Em um dia cinza-sujo com avenidas encharcadas de chuva. O vestido era solto e combinava com um céu azul inventado e a minha falta de idéia.
Acontece que não havia espaço nem outras cores capazes de sutilmente entrar por essa sexta-feira floral e poeticamente feminina.
Entre todo esse circulo fechado tem um buraco. Um buraco negro que engole em sua volta tudo que está vazio. E em meio tantos livros, tantas fotos, infinitos remédios, acessórios e maquiagens espalhadas pelo quarto, um porta retrato está vazio.
Foi preciso tirar da imagem um resguardo. Um acontecimento que não pode mais existir. Toda vez que alguma coisa muda o circulo fica menor. O meu circulo de viver. Porque certa vez foi preciso limitar.
Eu olho tudo em volta e alguma coisa me diz que preciso abandonar a superstição. Jogar fora alguma e exclusiva mágoa. Faz-se tão necessário organizar o que se deve e o que não se deve sentir que minha cabeça anda tonta. As pessoas andam falsas ou pelo menos parecem estar sendo [nada]. Não que tudo esteja fora do lugar, nunca esteve. O lugar é que abriga o ‘tudo’. Por isso eu ando meio fora de rota e de todos. Meu lugar não é fixo muito menos meu espaço é seguro.
Por tantas vezes mudei os livros de lugar, revirei gavetas, fechei algumas cartas, joguei outras fora. Liguei mas também não liguei. Você e o silêncio às vezes são bons. [Confesso] que revelei algumas fotos pra ter certeza de que não estou sozinha.
Mas hoje está tudo tão revirado que eu achei um espaço (pequeno, bem pequeno) ali: no quarto revirado num dia de domingo implorando segunda. Um espaço vazio. Sem foto, sem vida, sem cor, sem nada. Um porta-retratos vazio. Eternizado pela ausência. É preciso trocar os porta-retratos quando se tem uma foto. Quando ele está vazio não há o que trocar. Eu sou meu eterno porta-retrato.
Eu descobri que sou imprevisível. Gosto de pensar que as coisas boas vêm como grandes surpresas. Porque assim as surpresas se tornam eternas. E se tornam mesmo. Um beijo doce e quente inesperado. Uma mordida de leve enquanto eu durmo. O barulho de uma mensagem no celular que vem de dentro da bolsa. E de dentro da bolsa um papel amassado que diz: ''te amo'' em letras tortas. Ou até a vitamina de abacate na cama - mesmo que só tenha a vitamina - é o melhor bom-dia do mundo! Porque amar é. E sendo amor não interessa o resto. Não interessa se a gente vai dividir a conta. Se a gente prefere ficar no meio do mato do que no luxo. Se a gente engorda. Ou se a gente virou cinéfilos de filmes em 3D infantil. A gente acabou dividindo a família, os amigos, o mesmo prato, a fiel e eterna escova de dente, os problemas, a ignorância, os medos e a dor. Mas o essencial mesmo é que somos imprevisíveis. Mesmo você conhecendo meus mimos e minha antipática TPM você sempre arruma um jeito e me faz a pessoa mais boba e apaixonada do mundo quando chega com o chocolate (ou a champagne!). Tudo isso a troco de que? Boas histórias? Bons momentos? A lingerie muda e minha loucura também. Na mesma intensidade que seu time de futebol ganha e perde. E a gente continua. A gente continua sendo melhores amigos, confidentes, loucos, desvairados e amantes. Funciona assim: a gente abre parênteses (inventa um mundo!) e fecha parênteses. O que esse amor construiu chama-se fidelidade. E eu não falo dessa fidelidade que apenas se faz ser, eu falo de uma vida que estamos construindo. Num gerúndio sem fim. Te amo.